Contrabando de peptídeos e anabolizantes na fronteira com o Paraguai rende até 507% de lucro ao crime organizado

Ampolas e frascos de peptideos e anabolizantes irregulares apreendidos na fronteira entre Brasil e Paraguai
Foto: Campo Grande News

Um levantamento sobre o contrabando na fronteira entre o Brasil e o Paraguai revelou que medicamentos à base de peptídeos e anabolizantes se tornaram o segundo produto mais lucrativo para o crime organizado na região, atrás apenas dos cigarros. Segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf), a margem de lucro obtida com a venda irregular desses produtos pode chegar a 507%, um índice que ajuda a explicar por que o tráfico de substâncias hormonais e peptídicas vem crescendo de forma constante nos últimos anos, mesmo com o histórico de apreensões feitas por órgãos como a Receita Federal, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

O comércio ilegal de medicamentos, categoria que inclui peptídeos e anabolizantes, aparece com um índice médio de lucratividade de 415% nas rotas de contrabando monitoradas, ficando atrás apenas dos cigarros, historicamente o item mais rentável do contrabando na região. Para comparar, smartphones contrabandeados rendem cerca de 390% de lucro, e vinhos argentinos, depois de descontados os custos de transporte, chegam a 312%. O montante geral movimentado pelo contrabando na fronteira é estimado em R$ 60 bilhões por ano, de acordo com o Idesf, mas apenas entre 5% e 10% dessa carga é efetivamente apreendida pelas autoridades.

Como o esquema funciona na fronteira

Parte da dificuldade em conter esse tipo de contrabando está na escala do fluxo de pessoas na região. Somente na Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Ciudad del Este, no Paraguai, circulam diariamente cerca de 100 mil pessoas, e a fiscalização consegue inspecionar, na prática, menos de 2% desse volume. Esse gargalo operacional é apontado por autoridades como Fernando César Oliveira, superintendente da PRF no Paraná, como um dos principais fatores que permitem a entrada de mercadorias irregulares em grande quantidade, incluindo ampolas e frascos de peptídeos e hormônios sintéticos que chegam ao Brasil sem qualquer controle sanitário.

Ações recentes de repressão, como a Operação Sicarius, deflagrada em junho de 2026, e o trabalho conjunto entre Receita Federal e Vigilância Sanitária, têm apreendido lotes volumosos desses produtos. Somente entre janeiro e abril de 2026, a Receita Federal reportou a apreensão de mais de 1 tonelada de medicamentos emagrecedores, anabolizantes e peptídeos vindos do Paraguai, muitos deles escondidos em objetos do dia a dia — bonecas, sanduicheiras, air fryers, garrafas térmicas, livros e até potes de creme de cabelo — numa tentativa de burlar a fiscalização dos Correios e de outros pontos de entrada.

Alerta sanitário do Paraguai aponta marcas sem registro

Em maio de 2026, a Direção Nacional de Vigilância Sanitária do Paraguai (Dinavisa) emitiu um alerta classificando como “risco grave” à saúde pública a comercialização irregular de uma série de produtos vendidos como peptídeos, análogos hormonais e substâncias para emagrecimento, ganho de massa muscular e melhora de desempenho físico. Segundo o órgão paraguaio, nenhum dos itens listados possui registro sanitário no país, e os fabricantes declarados nas embalagens também não estão autorizados a produzir, importar ou distribuir esses produtos em território paraguaio.

Entre as marcas e produtos citados no alerta estão USA Peptides, Biogenesis, Synedica – Alluvi Healthcare, Oxigen, Veltrane, além de itens específicos como GLOW GHK-Cu, CJC-1295 sem DAC combinado com Ipamorelin, SS-31, TB-500, PT-141 e diferentes formulações comercializadas como retatrutida, entre elas Retagen 40mg e Veltrane Gold. A Dinavisa alerta que, por não terem registro nem fiscalização de qualidade, esses produtos podem conter substâncias não declaradas no rótulo, concentrações incorretas do princípio ativo e contaminações, o que pode causar efeitos adversos graves, incluindo risco à vida de quem os utiliza sem orientação médica.

No lado brasileiro da fronteira, a Vigilância Sanitária de Mato Grosso do Sul já recolheu mais de 26 mil itens irregulares apenas nas unidades dos Correios do estado, segundo Matheus Pirolo, gerente do Sistema Estadual de Vigilância Sanitária. O volume de apreensões reforça que a rota Paraguai–Brasil se tornou um dos principais canais de entrada desse tipo de produto no país, à margem de qualquer controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O que diz a legislação e por que o alerta importa

No Brasil, peptídeos e substâncias hormonais sintéticas como os citados nos alertas paraguaios só podem ser comercializados quando aprovados pela Anvisa, com registro sanitário válido, produção rastreável e, em muitos casos, exigência de prescrição médica. Produtos comprados sem essa procedência, ainda que vendidos como “importados” ou “de uso profissional”, não têm qualquer garantia de composição, dosagem ou origem — o que, segundo especialistas em vigilância sanitária, é justamente o ponto central do alerta emitido pelo Paraguai: o risco não está apenas na ilegalidade da importação, mas na impossibilidade de saber o que, de fato, está dentro do frasco.

Para quem acompanha o universo dos peptídeos com interesse terapêutico ou científico, o episódio funciona como um lembrete importante: a discussão sobre o potencial de diferentes peptídeos deve estar sempre associada à procedência regulada, ao acompanhamento médico e à origem verificável do produto. Casos como este, de contrabando em larga escala e sem qualquer controle de qualidade, são o retrato do que pode dar errado quando esses cuidados são ignorados.

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