
Em 27 de fevereiro de 2026, o governo dos Estados Unidos anunciou a reclassificação de cerca de 14 peptídeos, movendo-os da Categoria 2 para a Categoria 1 dentro do sistema regulatório da FDA. A decisão, influenciada diretamente pelo secretário de Saúde americano, reverteu restrições anteriores e ampliou o acesso a substâncias que, até então, viviam numa espécie de zona cinzenta regulatória nos Estados Unidos.
Na prática, a mudança permite que farmácias de manipulação licenciadas voltem a preparar esses peptídeos mediante prescrição médica — o equivalente, no sistema americano, às farmácias de manipulação que existem no Brasil. É importante entender o que a reclassificação não significa: passar para a Categoria 1 não equivale a uma aprovação da FDA para o composto, já que a maioria dessas moléculas nunca passou por ensaios clínicos de Fase 3.
O que de fato mudou foi o status regulatório: farmácias agora podem manipular legalmente esses peptídeos, desde que exista prescrição médica e justificativa clínica para o uso. Entre os efeitos esperados dessa mudança está uma possível redução de preços no mercado americano, já que a escassez provocada pela restrição imposta em 2023 havia inflado os valores cobrados por esses compostos — com mais farmácias voltando a operar, a tendência é que o preço no atacado desses peptídeos reclassificados se ajuste para baixo.
O momento da reclassificação coincide com um crescimento expressivo do mercado global de peptídeos terapêuticos, que deve avançar para US$ 164 bilhões neste ano, impulsionado principalmente pela demanda por tratamentos de diabetes, obesidade e câncer — categorias que respondem pela fatia mais robusta e cientificamente consolidada desse mercado.
Entre os compostos mais mencionados nesse debate regulatório estão a semaglutida, usada no tratamento de diabetes e obesidade, o BPC-157, associado à regeneração de tecidos, o GHK-Cu, ligado a propostas de rejuvenescimento da pele, e o MOTS-C, apelidado por parte do mercado de “peptídeo do exercício” por seu suposto efeito no metabolismo energético.
No Brasil, o cenário regulatório segue mais restritivo do que o americano: a Anvisa só permite a comercialização de peptídeos presentes em medicamentos já registrados no país, e a importação para uso pessoal exige prescrição médica, licença específica da agência e respeito a um limite de seis unidades por trimestre. Peptídeos vendidos fora desse escopo — inclusive vários dos que ganham espaço nas redes sociais — seguem irregulares no país.
O contraste entre a flexibilização americana e a cautela brasileira deve continuar gerando debate nos próximos meses, especialmente à medida que o mercado internacional de peptídeos segue em expansão acelerada e usuários brasileiros buscam, cada vez mais, informações sobre como essas substâncias são tratadas em diferentes países — um lembrete de que o uso sem orientação profissional segue oferecendo riscos reais à saúde, independentemente do status regulatório de cada composto.